Qualquer um que tentasse definir em termos precisos o significado de “cibercultura” esbarraria em um problema inicial: a dificuldade de definição da própria ideia de “cultura”. Fujamos, então, do risco de propor uma definição específica de “cultura” para pensarmos a cibercultura como um desdobramento ou atualização de nosso universo cultural em função de uma forte influência direta das tecnologias digitais e do complexo filosófico, antropológico e social que se apresenta a partir do ciberespaço. Em meio a tal painel, o princípio de conservação que poderia ser facilmente verificado no conceito de cultura encontra-se em choque e em meio a um processo extremamente dinâmico que é uma das marcas de um cenário de velocidade exacerbada e modificação contínua – sob o signo da “atualização” – que notamos na rede e no entorno tecnológico que a sustenta, como notebooks que proporcionam a portabilidade da antiga ideia de “computador pessoal” fixado em um cômodo da nossas casas, telefones celulares que extrapolam suas funções comunicativas iniciais e mesmo ferramentas advindas diretamente da internet, como sites, blogs, twitter, fóruns e tantas outras possibilidades.
É sempre importante ressaltar que semelhante cenário, muito embora se apresente e se imponha a cada um de nós, nas mais variadas situações, não é necessariamente algo que seja assimilado de modo totalmente tranquilo. Por mais que se esforce, uma pessoa que foi formada em meio a um contexto cultural anterior ao advento da internet – marcando sua própria visão de “cultura” em tais termos – não pode pressupor que vá estabelecer uma relação com o ciberespaço e suas aparentemente infinitas possibilidades da mesma maneira que alguém cujo nascimento foi devidamente apresentado ao mundo via facebook ou orkut e que, deste modo, formou-se ciberculturalmente desde antes de sequer perceber os processos por meio dos quais tal formação se deu. Como seria de se esperar, a cibercultura, em especial para aqueles que se pensaram culturalmente sem o “ciber-”, coloca-nos diante daquele que tanto nos oferece mas que sempre causa receio e apreensão: o Outro.
Em um segundo momento de nosso curso o desafio de conceituar a cibercultura será enfrentado por meio de um debate que busque pensá-la de dentro, de modo que algumas passagens de textos sobre o assunto serão novamente bastante úteis.
Sobre a cibercultura:
O que é, então, a totalidade? Trata-se, em minha palavras, da unidade estabilizada do sentido de uma diversidade. Que essa unidade ou essa identidade sejam orgânicas, dialéticas ou complexas e não simples ou mecânicas não altera nada: continua sendo uma totalidade, ou seja, um fechamento semântico abrangente.
Ora, a cibercultura inventa uma outra forma de fazer advir a presença virtual do humano frente a si mesmo que não pela imposição da unidade de sentido. Essa é a principal tese aqui defendida. (LÉVY, 2001a, p. 247-8)
Sobre a virtualização:
Deve-se temer uma desrealização geral? Uma espécie de desaparecimento universal, como sugere Jean Baudrillard? Estamos ameaçados por um apocalipse cultural? Por uma aterrorizante implosão do espaço-tempo, como Paul Virilio anuncia há vários anos? [Defendo] uma hipótese diferente, não catastrofista: entre as evoluções culturais em andamento nesta virada do terceiro milénio – e apesar de seus inegáveis aspectos sombrios e terríveis – , exprime-se uma busca da hominização.
Certamente nunca antes as mudanças das técnicas, da economia e dos costumes foram tão rápidas e desestabilizantes. Ora, a virtualização constitui justamente a essência, ou a ponta fina, da mutação
Sobre o papel do ato crítico no contexto ciberespacial e cibercultural:
A cibercultura é propagada por um movimento social muito amplo que anuncia e acarreta uma evolução profunda da civilização. O papel do pensamento crítico é o de intervir em sua orientação e suas modalidades de desenvolvimento. Em particular, a crítica progressista pode esforçar-se para trazer à tona os aspectos mais positivos e originais das evoluções
No entanto, muitos discursos que se apresentam como críticos são apenas cegos e conservadores. Por conhecerem mal as transformações em andamento, não produzem conceitos originais, adaptados à especificidade da cibercultura. Critica-se a “ideologia (ou a utopia) da comunicação” sem se fazer distinção entre televisão e Internet. Estimula-se o medo da técnica desumanizante, ao passo que as questões dizem respeito às escolhas entre as técnicas e a seus diferentes usos. Deplora-se a confusão crescente entre real e virtual sem nada se entender sobre a virtualização, que pode ser tudo menos uma desrealização do mundo – seria antes uma extensão do potencial humano. A ausência de visão de futuro, o abandono das funções de imaginação e de antecipação do pensamento têm como efeito desencorajar os cidadãos a intervir, deixando por fim o campo livre para as propagandas comerciais. É urgente, inclusive para a própria crítica, empreender a crítica de “gênero crítico” desestabilizado pela nova ecologia da comunicação. É preciso interrogar hábitos e reflexos mentais cada vez menos adequados às questões contemporâneas. (LÉVY, 2001a, p. 229)
Referências

