quarta-feira, 22 de setembro de 2010

A literatura de Graziela Hetzel


Graziela Hetzel: a dor tecida com delicadeza na literatura infantil


Alice Áurea Penteado Martha


O jogo de amarelinha (Manati, 2007) e O lobo (Manati, 2009), narrativas premiadas de Graziela Hetzel (Prêmio FNLIJ 2010 e Prêmio FNLIJ 2008, respectivamente), relatam temas delicados – a superação da perda da mãe com a consequente aceitação da madrasta e a dolorosa e incompreendida ausência do pai levado pela repressão. Na primeira, o narrador, em terceira pessoa, focaliza Letícia e conta a história da menina que, no jogo infantil “amarelinha” não quer chegar ao “céu”, pois ali estão todas as criaturas que amava e perdeu: “No céu está seu cachorrinho Xerife, a preá Joaninha... no céu está Clara, a mãe de Letícia. Será que ninguém entende por que ela nunca vai lá?” (HETZEL, 2007, p. 8). Ainda que a voz narrativa esteja em terceira pessoa, o que poderia indicar distanciamento entre o narrador e os fatos, o recurso empregado pode encurtar essa distância. Como observamos no excerto transcrito, na primeira parte do enunciado, reconhecemos com certa facilidade a voz de um narrador que se refere à menina e às perdas sofridas por ela, mas, quando ocorre o questionamento – “Será que ninguém entende por que ela nunca vai lá?” – os leitores não podem discernir a autoria da indagação, pois, com o emprego do discurso indireto-livre, as vozes mostram-se embaralhadas, reduzindo o distanciamento entre a voz que relata e a da criança. O emprego de semelhante recurso linguístico promove também a aproximação entre leitores e os fatos relatados.
A outra narrativa sensível de Graziela Bozano Hetzel, que trata de maneira rara e delicada o amor e a separação entre pai e filha, O lobo (Manati, 2009), apresenta, no plano do narrado, duas histórias: a narrativa inacabada do menino que anda pelo campo nas costas do lobo, que o pai começara a ler para a menina à noite quando foi levado pela repressão, e a da ausência paterna:

1ª narrativa
Na noite quieta, o menino desliza, só de meias, pela casa às escuras.
[...]
Sem ruído, abre a porta de entrada e vai para o quintal.
[...]
O menino monta em suas costas [do lobo] e os dois desaparecem no campo (HETZEL, 2009, p. 7-8).
2ª narrativa
Fechando o livro, o pai sorri para a menina aninhada em seu colo. [...] Amanhã eu conto mais – Levanta-se e coloca-a na cama [a menina] (HETZEL, 2009, p. 10).

A superação das carências – ambas oriundas de bruscas rupturas – realiza-se, paulatinamente, no entrecruzar dos relatos: ao saber da prisão, a menina busca na ficção, na história do lobo que passeava com o garoto, a solução para sua angústia e, agarrada ao pêlo macio da imaginação, busca o pai.

No livro grosso, de muitas letras, ela passeia o dedo pela imagem de um lobo cinzento.
- Você sabe quando ele vai voltar – pergunta baixinho. – Sabe? – repete, examinando seus olhos amarelos (HETZEL, 2009, p. 19).
À noite o lobo voltou. [...]. Entrou no sonho de Lília e levou-a com ele. [...]. Muitas noites vêm e vão, mas Lília e o lobo não se cansam (HETZEL, 2009, p. 22).

Ao conhecer, finalmente, o destino paterno, as duas necessidades são satisfeitas e, na primeira visita, leva na bagagem o livro: “– Eu só quero levar isto – diz Lília, entregando o livro: - O papai precisa acabar de ler a história do lobo” (HETZEL, 2009, p. 41).
A reação provocada pelas perspectivas infantis na compreensão sobre o modo como se constituem os conflitos na estrutura das narrativas é um dos elementos fundamentais no reconhecimento da interação entre leitores e texto, desejada por todos que se debruçam sobre questões relativas à leitura do literário. As personagens, crianças ou representações delas, são criaturas construídas, essencialmente, pela reflexão, de modo que os leitores possam contribuir em sua caracterização. A elaboração de cada uma delas acontece aos poucos, à medida que atuam e refletem sobre o mundo narrado ou se expõem aos olhos dos leitores. A infância, representada ficcionalmente, é enfocada como etapa decisiva no processo de vida, plena de significado e valor; as personagens, portadoras de uma identidade própria e completa, envolvem-se em situações que as obrigam a refletir e a reformular conceitos que possuem a respeito de si mesmas e do mundo.

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Parabéns Alice!!!! Você fala com tanta paixão, que é impossível não sentir vontade de ler as histórias. Com certeza vou ler!

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